Trilha 1 · Conversas com a Peeko

Alessandra Giovanna

Quando a intenção não basta

Uma trajetória que passa pela comunicação, por territórios atingidos por barragens, por projetos de equidade de gênero e por comunidades indígenas — e que levanta uma pergunta incômoda: quando podemos dizer que uma iniciativa realmente gerou impacto?

Alessandra Giovanna

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Eu preciso que isso seja um trabalho

Antes de existir uma carreira desenhada, havia uma inquietação.

Alessandra Giovanna (ou apenas Alessandra) me contou na nossa conversa que entrou na faculdade de Comunicação Social já sabendo que queria trabalhar com impacto social. O nome da área, as possibilidades profissionais e o caminho até ali ainda não estavam claros para ela. Mas uma coisa estava.

Criada em uma família em que caridade, doação e trabalho voluntário faziam parte da vida, ela não queria deixar essa dimensão restrita apenas ao tempo livre. Ao mesmo tempo, precisava construir uma profissão, ter renda e encontrar um lugar onde aquilo que considerava importante também pudesse ser trabalho.

“Eu quero continuar fazendo isso e eu preciso de renda, eu preciso que isso seja um trabalho.”

Talvez essa seja uma pergunta conhecida para muita gente que se aproxima do campo do impacto socioambiental: como transformar uma inquietação em trabalho, com a consciência e sem esperar que a carreira apareça pronta?

No caso de Alessandra, a resposta começou pela ferramenta que ela já tinha nas mãos: a comunicação.

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Entrar com o que se tem

A comunicação foi a porta de entrada. Vieram projetos de extensão na universidade, experiências com comunidades, uma passagem pelo PNUD em Brasília e, aos poucos, a aproximação com a gestão de projetos socioambientais.

Não houve uma mudança de carreira anunciada em um grande momento, mas houve experimentação.

Anos depois, ao me contar o que diria para alguém que quer entrar na área de impacto e ainda não sabe por onde começar, Alessandra resumiu a própria trajetória em uma frase:

“Eu entrei com o que eu tinha para oferecer naquele momento.”

Essa frase foi muito simbólica para mim, porque talvez a entrada no setor de impacto não aconteça quando alguém finalmente reúne todas as certificações, conhece todas as siglas (que são muitas!) ou encontra a vaga com o título perfeito. Às vezes, começa quando uma habilidade que já existe encontra um problema que vale a pena ajudar a enfrentar.

03

Quando impacto passa pela tragédia

Foi trabalhando em consultorias socioambientais que a trajetória de Alessandra se aproximou dos rompimentos de barragens em Minas Gerais.

Ali, impacto deixou de ser uma ideia abstrata. Havia famílias atingidas, comunidades, empresas, órgãos públicos, consultorias, interesses diferentes e uma urgência que não terminava no fim do expediente.

Ela fala do quão árduo foi estar no meio dessa mediação. Do envolvimento que atravessava o limite profissional. Da dificuldade de enxergar resultado em meio a tantas disputas.

Foi também nesse período que uma pergunta começou a incomodá-la:

“Não é possível que a única possibilidade de trabalhar com impacto seja pela tragédia.”

Eu conheço, por outro lugar, parte dessa sensação.

Minha formação é em Engenharia de Minas e, durante um período da minha carreira, trabalhei com gestão de barragens de rejeito. Também estive em contato direto com comunidades que viviam em zonas de autossalvamento. Eu entendia a responsabilidade da empresa e, ao mesmo tempo, escutava as pessoas que estavam do outro lado daquela relação.

Quando Alessandra falou sobre o custo da mediação, a conversa deixou de ser apenas uma entrevista. Havia ali experiências diferentes, mas uma tensão conhecida: estar entre organizações, territórios e pessoas e perceber que nenhuma resposta simples dá conta dessa relação.

Para Alessandra, aquela experiência também foi o pontapé para respirar novos ares no impacto social: se trabalhar com impacto não poderia significar apenas responder ao dano, onde mais esse trabalho poderia acontecer?

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Existe outro jeito de fazer isso?

A resposta começou a aparecer quando ela recebeu o convite para trabalhar em um projeto de inclusão de mão de obra feminina no setor de energia solar.

Era outra lógica.

Em vez de atuar somente depois que um impacto negativo já havia acontecido, Alessandra começou a participar de projetos com uma intenção social definida desde o início.

Vieram projetos ligados a gênero, empregabilidade, energia e responsabilidade social. Vieram também novas ferramentas, certificações e uma aproximação maior com aquilo que, naquele momento, começava a ganhar espaço no vocabulário das empresas: ESG (Environmental, Social and Governance).

A mudança não eliminou as contradições. Mas ampliou o campo para atuação.

Era possível trabalhar com grandes organizações sem que o ponto de partida fosse necessariamente uma tragédia ou uma medida compensatória. E foi nesse caminho que gestão, monitoramento e avaliação passaram a ocupar cada vez mais espaço no trabalho dela.

05

O que uma comunidade realmente precisa?

Hoje, um dos projetos de Alessandra acontece junto a associações indígenas no Norte do Brasil.

Há recursos disponíveis por meio de fundos e editais. Há necessidades nos territórios. Entre uma coisa e outra, porém, existe um caminho que não cabe em uma chamada de financiamento.

É preciso ter associação regularizada. Governança. Entender como receber o recurso. Prestar contas. Transformar necessidades muito amplas em projetos possíveis de executar. Escolher prioridades.

E essa escolha, às vezes, começa com uma pergunta aparentemente simples.

Alessandra contou que algumas associações diziam precisar de uma sede. Mas a função dela não era apenas transformar aquele pedido em um projeto.

“Será que vocês precisam de uma sede mesmo? Essa sede vai ser frequentada? Como você vai propor um projeto se você não tem um CNPJ, não tem ali uma governança da sua associação? Qual é o objetivo dela?”

O exemplo parece pequeno, mas diz muito sobre a forma como um projeto começa. Antes de pensar na solução, é preciso entender se estamos fazendo a pergunta certa e, principalmente, quem está respondendo a ela.

É uma parte do impacto que aparece pouco nas fotografias de encerramento de projeto. Antes do recurso. Antes da entrega. Antes do indicador. Existe estrutura.

E existe, principalmente, a necessidade de entender qual problema aquelas pessoas querem resolver — não apenas qual problema alguém de fora enxerga.

06

A nossa vontade de mudar é necessariamente a vontade do outro?

Foi nesse ponto da conversa que apareceu uma das falas que mais me fizeram pensar.

Perguntei à Alessandra o que existe no cotidiano desses projetos que quase ninguém vê. Algo que quem está de fora talvez não perceba.

A resposta não foi confortável.

“Não é porque as pessoas precisam muito que elas vão estar com a energia de mudar também.”

Ela estava falando de oficinas, de atenção, de expectativas e de grupos que respondem de maneiras diferentes às oportunidades. Mas a fala abriu uma questão maior.

“Às vezes a gente chega com muita vontade, vendo as necessidades, e nem sempre a nossa vontade é a vontade deles também.”

Quem trabalha com impacto também chega com expectativas.

Existe cronograma. Existe recurso. Existe indicador. Existe uma ideia de transformação que foi desenhada em algum lugar.

Mas existe também quem vive o território.

E talvez uma das partes mais difíceis desse trabalho seja reconhecer que identificar uma necessidade não nos dá automaticamente o direito de definir como outra pessoa deveria querer transformá-la.

Alessandra colocou isso de outra forma:

“As expectativas de impacto nem sempre correspondem ao que o público beneficiário está disposto a entregar também.”

Não escutei essa fala como uma conclusão sobre comunidades. Escutei como um alerta sobre quem desenha projetos: intenção, recurso e necessidade não garantem, sozinhos, apropriação.

Talvez impacto também exija aprender a ajustar a nossa própria expectativa de mudança.

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300 mulheres. Mais de 1.000 contratadas. Mas e aí?

A conversa chegou então à mensuração.

Ao longo da trajetória, Alessandra se aproximou de monitoramento e avaliação e passou a observar outro problema: grandes organizações conseguem colocar dinheiro em projetos sociais sem necessariamente terem a mesma clareza sobre o que esperam que aquele investimento transforme.

Um dos exemplos veio de um programa de capacitação e empregabilidade de mulheres em uma empresa.

As metas foram atingidas.

“300 mulheres formadas, mais de 1.000 mulheres contratadas. Mas e aí?”

A pergunta muda a conversa.

Porque contar participantes e contratações é importante. Mas o que aconteceu depois?

A presença de mais mulheres alterou políticas internas? A empresa precisou adaptar estrutura, uniformes, banheiros, práticas de gestão e prevenção ao assédio? Houve retenção? O investimento produziu retorno social? Se sim, como esse retorno foi acompanhado?

É nesse contexto que Alessandra fala sobre SROI, monitoramento e avaliação. Não como mais uma sigla para o setor, mas como tentativa de responder a uma pergunta básica: o que mudou por causa do investimento feito?

Para ela, existe ainda uma herança difícil de romper:

“O social muitas vezes é olhado como uma área de assistência, de imagem da empresa.”

Talvez seja justamente por isso que mensurar importa.

Não para transformar toda mudança em um número. Nem para fingir que relações humanas cabem perfeitamente em uma planilha. Mas para conseguir distinguir investimento social de boa intenção, e boa intenção de transformação.

08

Entrar com o que se tem

Quando olho para a trajetória que Alessandra compartilhou, não vejo uma linha reta.

Vejo comunicação. Universidade. PNUD. Territórios atingidos por barragens. Um momento de esgotamento. Energia solar. Equidade de gênero. Gestão de projetos. Comunidades indígenas. Monitoramento e avaliação.

E vejo alguém que foi entendendo o que significava trabalhar com impacto enquanto trabalhava. Por isso, talvez faça sentido voltar à pergunta do começo. Como alguém entra nesse campo? A resposta de Alessandra não foi uma lista de cursos.

“Eu acho que a gente só vai entendendo o meio em que está desejando entrar quando experimenta.”

E, logo depois:

“Eu entrei com o que eu tinha para oferecer naquele momento.”

Talvez seja uma boa imagem para encerrar esta primeira conversa da Peeko.

Impacto pode exigir método, recursos, indicadores, governança e capacidade de medir resultado. Mas, antes de tudo isso, existe gente tentando entender onde pode contribuir — e aprendendo no caminho que contribuir também significa escutar, rever expectativas e fazer perguntas melhores.

A Peeko nasceu para registrar justamente esse caminho. Não apenas o projeto pronto. Não apenas a meta atingida. Não apenas a história contada depois que tudo parece fazer sentido. Mas o que acontece no meio.

Sobre esta conversa

Alessandra Giovanna atua com gestão de projetos e consultoria na área socioambiental, com experiências em direitos humanos, equidade de gênero, relacionamento com comunidades, fortalecimento institucional, monitoramento e avaliação. Esta edição foi construída a partir de uma conversa com a Peeko realizada em 18 de agosto de 2026.