Há trajetórias que parecem ter sido desenhadas de trás para frente. Quando a gente olha hoje, tudo parece se conectar. Mas, enquanto estava acontecendo, havia mais perguntas do que respostas.
Foi essa sensação que ficou comigo depois de conversar com a Júlia Espeschit. Ela passou por pesquisa, segurança pública, monitoramento e avaliação, reparação de desastres ambientais, ODS, clima, empresas, ativismo e educação. Não porque tivesse decidido, no início da carreira, que esse seria o mapa. A conexão apareceu depois.
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Antes da causa, a pergunta
Júlia me contou que gosta de pesquisar até entender o lugar em que está entrando. O medo de falar sobre algo sem profundidade a acompanha e, talvez por isso, tantas mudanças da sua trajetória tenham começado da mesma maneira: alguma coisa acontecia e ela queria saber por quê.
“Foi na Fundação João Pinheiro que eu me deparei com esse lugar da pesquisa que provoca, que gera impacto. Era uma pesquisa que tinha um propósito: virar política pública.”
Na graduação em Ciências do Estado, o primeiro caminho parecia ser a segurança pública. Ela pesquisou a atuação das Forças Armadas em operações de Garantia da Lei e da Ordem e imaginava continuar nessa área. Até que, em 2015, a Barragem de Fundão, no município de Mariana-MG, rompeu.
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Quando o desastre deixa de ser notícia
Poucos dias depois de defender o TCC, Júlia estava em campo. Sua tarefa era localizar pessoas atingidas ao longo do Rio Doce e entender impactos que nem sempre eram reconhecidos por quem os vivia.
“Eu olhava para aquele desastre e falava: gente, não é possível. Tem que ter alguma coisa que eu possa fazer daqui. Por que aconteceu esse desastre?”
Ela contou sobre moradores que diziam não ter sido impactados, embora utilizassem água ligada ao rio para plantas ou dependessem de fontes próximas. Ali, impacto deixou de ser uma categoria abstrata. Era preciso perguntar, observar e, sobretudo, não presumir a experiência do outro.
03
“Você é mãe, não dá”
Pouco depois daquele primeiro trabalho de campo, Júlia descobriu que estava grávida. Era também o período do surto de zika vírus e continuar em campo representava um risco para a gestação. Por segurança, ela passou a trabalhar no escritório, sistematizando as informações que os pesquisadores coletavam em campo.
Depois do nascimento da filha, Júlia dedicou um ano à maternidade. Quando decidiu retornar ao mercado, candidatou-se a uma posição de coordenação de equipe de campo na mesma empresa. Foi então que a maternidade apareceu de outra maneira na trajetória profissional.
“A primeira devolutiva que eu tive foi: ‘Você é mãe, não dá’.”
Meses depois, a própria empresa voltou a procurá-la. Dessa vez, para uma posição no escritório, que aproveitava sua experiência com pesquisa, monitoramento, avaliação e sistematização.
04
Do rompimento ao modelo de desenvolvimento
No trabalho ligado à reparação, a pergunta não desapareceu. Ficou maior. Se uma barragem rompeu, outras poderiam romper. Por que determinadas soluções eram escolhidas? Que riscos eram aceitos? O que precisava mudar para que a reparação não fosse apenas resposta ao desastre?
“Por que essa barragem rompeu? Se aquela barragem rompeu, outras podem romper.”
Em 2019, Brumadinho aprofundou o incômodo. Reparar sem transformar as condições que produzem o risco poderia significar voltar ao mesmo ponto.
05
Quando clima vira causa
Foi nessa ampliação do olhar que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável entraram de vez na trajetória. Uma formação do Gaia Education ampliou seu repertório de metodologias participativas e seu contato com a Agenda 2030. Depois vieram o mestrado, a atuação com políticas públicas, o Engajamundo e os espaços de construção de políticas climáticas.
“Não foi talvez uma escolha consciente, mas foi uma trajetória que fez sentido.”
A crise climática passou a reunir perguntas antes separadas: desenvolvimento econômico, desigualdade, gênero, território, atuação do Estado e responsabilidade das empresas.
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Entre poder público, empresas e ativismo
Júlia passou a ocupar lugares diferentes ao mesmo tempo. Como ativista, participava da construção de políticas públicas e de espaços da sociedade civil. Profissionalmente, aproximava-se das empresas, primeiro por relatórios de sustentabilidade e depois por estratégia organizacional conectada aos ODS.
Se o modelo econômico fazia parte do problema que queria compreender, as empresas também precisavam fazer parte da transformação. A questão deixou de ser apenas comunicar sustentabilidade e passou a ser perguntar onde uma organização pretende gerar mudança e se seus investimentos realmente conversam com isso.
07
Resultado não é impacto
Quando chegamos à mensuração, a conversa tocou num ponto que aparece com frequência na Peeko: contar pessoas atendidas, horas de formação ou atividades realizadas não responde, sozinho, à pergunta sobre impacto.
“Isso é resultado. Mas o impacto que você gerou é outra coisa. É a mudança que você provocou naquele território.”
Júlia deu o exemplo de uma mulher que participa de uma formação e depois passa a compartilhar conhecimento, organizar iniciativas ou mobilizar outras pessoas. A transformação no território pode ultrapassar aquilo que o projeto originalmente decidiu medir.
08
A formação que começou antes do currículo
Já perto do fim da conversa, surgiu uma conexão que a própria Júlia disse ter elaborado só recentemente. Hoje ela trabalha em uma rede educacional ligada ao Colégio Santo Agostinho. E foi justamente ali, ainda adolescente, que teve algumas das primeiras experiências de voluntariado.
“O voluntariado foi o que me abriu visão para os problemas. Foi uma formação humana.”
Ela descreveu o voluntariado como contato com dificuldades que sua própria realidade não mostrava. Anos depois, voltar à educação fez essa origem reaparecer. O que parecia uma nova frente profissional também era, de alguma forma, um retorno.
09
Você não tem a solução
Perguntei a Júlia o que costuma ficar invisível para quem quer trabalhar com impacto. A resposta talvez seja uma das mais importantes de toda a conversa.
“A gente não leva a mudança para lugar nenhum. A gente inspira pessoas para que elas façam a mudança.”
Dinheiro, metodologia ou uma solução aparentemente inovadora não substituem a participação de quem vive o território. Para Júlia, trabalhar com impacto exige abandonar a posição de quem chega sabendo o que precisa ser feito. É preciso ocupar o lugar da escuta e incluir quem será impactado na construção das próprias soluções.
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Encontrar uma causa para não tentar mudar tudo
No final, perguntei o que ela diria a alguém que quer começar uma trajetória de impacto. Júlia falou sobre sair, conhecer pessoas, fazer voluntariado, experimentar realidades e encontrar uma causa.
“Enquanto você estiver pensando que vai mudar o mundo, a chance de frustração é tão grande. Na hora que você tem uma causa, isso te posiciona em todos os âmbitos da sua vida.”
Talvez seja justamente isso que a trajetória dela mostre. A causa nem sempre aparece antes do caminho. Às vezes, é caminhando — e insistindo nas perguntas certas — que a gente descobre o que não consegue mais deixar de enxergar.
Enquanto escrevia esta conversa, me lembrei da música "Caminhador", da cantora Anitta:
"Caminha, caminhador
Caminho, e o caminho se abrirá
Caminho com a minha dor
Caminho, e o caminho se abrirá”
Talvez algumas trajetórias sejam exatamente assim: o caminho não aparece antes. Ele se abre enquanto a gente caminha.

