Trilha 9 · Conversas com a Peeko

Luíza Loureiro

A ponte que não é de concreto

Conversei com Luíza Loureiro sobre transição de carreira, gestão de projetos sociais e o que acontece quando trocamos o impulso de resolver pela disposição de escutar.

Luíza Loureiro

Por Natália Gualberto | Conversas com a Peeko

Há pessoas que parecem carregar uma inquietação que não cabe muito bem no lugar em que estão. Não necessariamente porque aquele lugar seja ruim, mas, às vezes, porque nem saibam exatamente para onde querem ir. É mais uma sensação de que existe alguma coisa além, tipo outra pergunta a fazer, outra conversa para ter, outra maneira de usar aquilo que já aprenderam.

Luíza Loureiro parece conhecer bem essa inquietação.

Engenheira civil de formação, ela passou anos trabalhando com gestão de projetos antes de direcionar sua carreira para o impacto social. Mas reduzir sua trajetória a uma transição entre setores deixaria de fora justamente o que mais me chamou a atenção durante nossa conversa. Porque Luíza não deixou de construir. Apenas se mudaram os materiais.

No lugar do concreto, entraram projetos, dados, territórios, organizações e pessoas. No lugar de estruturas calculadas previamente, apareceram perguntas que nem sempre admitem respostas prontas. E, ao longo desse caminho, uma profissional acostumada a organizar, planejar e resolver problemas foi descobrindo uma habilidade que talvez seja ainda mais importante para quem trabalha com transformação social que é reconhecer quando a solução não deve começar em si mesma.

Essa história, portanto, não começa quando Luíza decide trabalhar com impacto. Começa um pouco antes com alguém que nunca teve muita vocação para ficar parada.

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“Sarna para se coçar”

Quando perguntei quem era a Luíza para além dos cargos, das formações e do trabalho, ela não me respondeu com uma profissão, uma qualidade cuidadosamente escolhida ou alguma dessas definições que caberiam bem em uma bio. Ela pensou na pergunta e chegou a uma imagem bastante menos comportada.

“Eu acho que sou a pessoa que arranja sarna para se coçar. Eu definitivamente estou sempre fazendo alguma coisa, sempre questionando alguma coisa e querendo me aprofundar naquilo. Os debates comigo nunca são superficiais. Eu sempre quero ir navegando por águas mais profundas.”

Existe algo nessa frase que ajuda a entender muito do que viria depois. A curiosidade, a necessidade de aprofundar, a dificuldade de aceitar a superfície como resposta suficiente. Mas existe também um risco, porque alguém que está sempre procurando a próxima coisa para fazer pode, em algum momento, descobrir que transformou movimento em obrigação.

Luíza passou por dois burnouts ao longo da vida profissional. E foi também a partir dessas experiências que começou a se fazer uma pergunta que parece simples, mas não era: quem existia ali quando o trabalho deixava de ocupar quase todo o espaço?

A resposta definitivamente não veio pronta, contudo, foi sendo construída com coisas pequenas. Ela retomou a leitura, começou a fazer crochê, tentou pintar, plantar, cozinhar. Passou a procurar deliberadamente outros lugares para colocar atenção, curiosidade e tempo.

Até chegar a uma definição que, talvez justamente por não falar de carreira, diga bastante sobre a profissional que ela se tornou.

“Hoje, mais do que ser uma Luíza que eu quero que seja reconhecida ou admirada profissionalmente, eu quero ser uma pessoa interessante. E, para ser uma pessoa interessante, eu preciso ter tempo para me dedicar a muitas coisas.”

Achei interessante ouvi-la falar de tempo porque, alguns minutos depois, perceberia que a relação da Luíza com ele também ajuda a explicar sua maneira de trabalhar.

Ela gosta de viajar sem transformar tudo em roteiro, gosta de conversar, de conhecer pessoas, de sentar, como ela mesma brincou, “no meio-fio para bater papo com um velhinho”. Além disso, existe nela uma vontade genuína de descobrir o que aparece quando uma conversa não precisa chegar rapidamente a algum lugar.

Só que essa disponibilidade para permanecer não parece ter vindo exatamente junto com toda aquela inquietação. A vontade de fazer, sim, essa é antiga.

Luíza se lembra de dizer à mãe, ainda criança:

“Mãe, o mundo é muito grande para eu ficar dentro de um quarto ou de uma sala. Eu preciso ir para a rua.”

É interessante que Luíza reconheça parte desse movimento na própria família, formada majoritariamente por mulheres que estavam sempre fazendo alguma coisa e que cozinhavam, capinavam, trabalhavam e mantinham a casa em movimento. Crescer cercada por essas referências parece ter reforçado nela essa disposição constante para fazer, enquanto outra habilidade foi ganhando espaço com o passar do tempo e se tornando cada vez mais consciente, que é a escuta.

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A luz que sempre brilhou, mas que precisava ser reconhecida

Quando perguntei em que momento o impacto passou a fazer parte da vida dela, Luíza não apontou um início exato. Em vez disso, recorreu a uma imagem que ajuda a entender melhor o que aconteceu. Segundo ela, esse interesse sempre esteve presente, ainda que por muito tempo ocupasse um espaço menor, quase como uma luz acesa ao fundo enquanto outras escolhas profissionais tomavam a frente.

“Acho que ela sempre foi uma lanterninha ali, uma velinha que ficava acesa num quartinho escuro. Então ela sempre existiu. [...] A pergunta é quando eu dei espaço para ela, quando ela deixou de ficar no cantinho da sala e talvez ocupou o centro da mesa.”

Essa luz aparecia desde cedo no interesse por pautas sociais e políticas e também na forma como Luíza se colocava diante de situações que considerava injustas. Ainda assim, foi durante sua trajetória profissional que esse incômodo começou a ganhar outra dimensão, especialmente quando ela trabalhou em uma obra de reconstrução do município para famílias atingidas pelo rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais. O projeto ainda fazia parte do universo da construção civil, mas a aproximava de uma realidade que já tocava em questões sociais de maneira muito mais direta do que os trabalhos anteriores.

Ela se lembra inclusive de um diretor dizer que aquela seria provavelmente a experiência mais próxima de uma obra social que encontraria dentro da empresa e que, por isso, não deveria deixar a oportunidade passar. Talvez por isso Mariana tenha se tornado uma espécie de ponto intermediário entre dois mundos que, naquele momento, ainda não pareciam totalmente conectados. De um lado estava a engenharia e tudo o que Luíza já sabia fazer e, do outro, começava a aparecer com mais força a vontade de usar essa bagagem em trabalhos que estivessem diretamente ligados à transformação social.

Foi na pandemia, porém, que essa vontade deixou de caber apenas nas brechas da rotina. Até então, Luíza tentava aproximar o impacto do trabalho sempre que podia, seja por meio de voluntariado ou buscando algum vínculo entre seus projetos e uma pauta social, mas chegou um momento em que isso já não parecia suficiente.

“Falavam para mim ‘faz um voluntariado’. E eu falava ‘não, eu já faço voluntariado. Eu não quero que o tempo que resta da minha semana eu me dedique a isso. Eu quero que a minha semana seja majoritariamente dedicada a isso’.”

Essa frase me parece importante porque mostra que a transição não nasceu de uma descoberta repentina sobre o que ela gostaria de fazer, mas de uma percepção mais incômoda sobre o espaço que aquilo ocupava em sua vida. Luíza já sabia que queria estar mais próxima de trabalhos com propósito e já procurava maneiras de aproximar esse desejo da rotina, mas começou a perceber que não queria mais depender das horas restantes para se dedicar ao que considerava importante.

A pandemia acabou funcionando como um momento de ruptura e também de decisão, porque diante de tantas incertezas ela entendeu que talvez aquele fosse justamente o momento de tentar. Pediu demissão e passou a procurar um trabalho que fizesse mais sentido para o lugar que o impacto já vinha ocupando dentro dela.

O interessante é que essa escolha não exigiria abandonar tudo o que havia construído até ali. Luíza ainda não sabia exatamente como sua experiência na engenharia encontraria espaço naquele novo universo, mas logo descobriria que mudar de setor não significava necessariamente começar outra vez do zero.

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A engenheira continuou ali

Quando decidiu direcionar a carreira para o impacto social, Luíza já sabia qual parte da experiência anterior queria levar consigo. Durante os anos na construção civil, grande parte de sua rotina havia sido dedicada à gestão de projetos e foi justamente por esse caminho que ela imaginou sua entrada no novo setor.

“Eu sempre trabalhei com gestão de projetos e, na construção civil, obra era basicamente gestão de projetos. Eu falei ‘cara, é isso, eu quero fazer gestão de projetos de impacto social’.”

A mudança, porém, começou a mostrar que saber gerir um projeto não era exatamente o mesmo que saber gerir um projeto social. A base permanecia, mas entravam outras perguntas porque prazo, orçamento e entrega precisavam conviver com transformação, território e impacto. Foi durante uma formação específica em gestão de projetos sociais que Luíza teve contato com ferramentas como teoria da mudança e marco lógico e percebeu que aquilo que já sabia não precisava ser substituído, mas complementado.

“Eu acho que não existe uma diferença tão grande, mas existem camadas. [...] Quando você fala de social, de impacto, de transformação, essas palavras trazem camadas para esse olhar da gestão.”

Talvez seja por isso que, quando Luíza fala sobre a própria formação, ela se lembra menos do conhecimento técnico da engenharia e mais da maneira de raciocinar que desenvolveu durante aqueles anos. Hoje ela brinca que provavelmente não saberia dizer a proporção correta para fazer concreto, mas reconhece que levou consigo pensamento lógico, olhar investigativo, senso crítico e capacidade de resolver problemas.

Essa combinação fica mais visível quando ela fala do trabalho com monitoramento e avaliação. Luíza não precisa ser a pessoa que constrói uma dashboard ou domina todas as especialidades envolvidas em um projeto para contribuir com ele porque parte de seu trabalho está justamente em saber o que questionar, perceber quando uma análise está limitada e identificar quem precisa entrar na conversa.

“Eu trabalho muito com monitoramento e avaliação e eu não sei construir uma dashboard, mas eu sei propor, sei questionar coisas e propor caminhos para monitoramento dos dados. Eu sei dizer ‘acho que a gente está com um olhar muito viciado, conversa com fulano que não está olhando para isso todo dia e talvez tenha um olhar externo para julgar a forma de exibir esse dado’.”

Foi assim que a transição deixou de parecer uma troca completa de profissão e passou a se revelar como uma ampliação de repertório. Luíza continuava trabalhando com projetos, mas agora precisava incorporar perguntas que a engenharia sozinha não havia lhe ensinado a fazer.

E algumas dessas perguntas apontavam para algo ainda maior, porque ao entrar no setor ela também começou a perceber que trabalhar com propósito não significa trabalhar sem cobrança, sem recursos ou apenas por boa vontade.

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Propósito também paga boleto

Ao entrar no setor de impacto, Luíza encontrou não apenas novas ferramentas e formas de pensar os projetos, mas também uma contradição que ainda acompanha esse universo. Ao mesmo tempo em que existe uma expectativa crescente de profissionalização, permanece do lado de fora a ideia de que trabalhar com impacto é quase uma extensão do voluntariado e que propósito deveria bastar como motivação e, em alguns casos, até como recompensa.

Ela reconhece que muita gente chega a esse campo movida por uma vontade genuína de contribuir com alguma transformação e que esse desejo também fez parte de sua própria trajetória, mas chama atenção para o risco de transformar propósito em justificativa para desvalorizar quem escolhe fazer desse trabalho uma profissão.

“Tem um preconceito de quem está fora desse lugar do terceiro setor e do impacto social de achar que a gente tem que fazer tudo voluntário e por amor. [...] Muita gente veio para cá por acreditar no propósito e querer deixar uma marca que fizesse sentido, mas todo mundo tem que pagar as contas.”

Essa romantização também esconde uma estrutura de trabalho que, embora tenha particularidades, continua envolvendo organizações que precisam se sustentar, projetos que dependem de financiamento e profissionais responsáveis por planejamento, execução, relacionamento e entrega de resultados. Luíza percebeu isso logo no início da transição, quando a imagem um tanto estereotipada de um setor movido apenas por boas intenções começou a dar lugar a uma realidade muito mais próxima de qualquer outro ambiente profissional, ainda que os objetivos e as relações envolvidas fossem diferentes.

O problema é que essa cobrança por profissionalização não acontece nas mesmas condições em todos os setores, já que o volume de recursos disponível para organizações de impacto costuma ser mais limitado e isso influencia tanto a capacidade de contratar quanto as possibilidades de desenvolver equipes, investir em ferramentas e atrair profissionais especializados. Na leitura de Luíza, essa diferença ajuda a explicar por que algumas práticas que já estão consolidadas em outros mercados ainda avançam mais devagar no campo social.

“Não tem o volume de dinheiro que circula no segundo setor e no primeiro setor circulando no terceiro setor. Acho que isso vai fazendo com que ele se desenvolva de forma mais lenta nesse lugar do olhar mais profissional.”

Por isso, falar em profissionalização não significa aproximar o impacto de uma lógica empresarial a qualquer custo, mas reconhecer que boas intenções não substituem estrutura, conhecimento e condições adequadas de trabalho. Se queremos projetos capazes de permanecer nos territórios, aprender com seus resultados e produzir transformações consistentes, também precisamos discutir quem executa esse trabalho, com quais recursos e durante quanto tempo.

E é justamente quando entramos nessa discussão sobre resultados que outra questão aparece, porque mesmo um projeto bem planejado, financiado e executado ainda precisa responder a uma pergunta muito mais difícil do que quantas pessoas alcançou.

Precisa tentar entender o que realmente mudou.

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Nem tudo que importa cabe na planilha

Se profissionalizar o setor já exige estrutura, recursos e gente preparada, avaliar o que esses projetos produzem acrescenta uma dificuldade ainda maior. Luíza trabalha com monitoramento e avaliação e reconhece que medir impacto está longe de ser uma tarefa simples, principalmente porque muitos projetos ainda são pensados a partir do que conseguem entregar no curto prazo e não necessariamente da transformação que pretendem produzir ao longo do tempo.

Quando uma iniciativa termina, é relativamente fácil informar quantas pessoas participaram, quantas atividades foram realizadas ou quantos materiais foram distribuídos. O desafio começa quando a pergunta deixa de ser sobre alcance e passa a ser sobre mudança, porque entender o que realmente aconteceu na vida de alguém pode exigir acompanhamento por anos, permanência no território e até uma clareza que nem sempre existia quando o projeto foi desenhado.

“Às vezes exige que você atue num projeto de longo prazo no território com as mesmas pessoas e acompanhe essa pessoa por um longo tempo da vida para você entender de fato o impacto.”

Para Luíza, parte da dificuldade está em começar um projeto sem definir com precisão qual transformação se pretende alcançar, porque quando o objetivo permanece amplo demais, a avaliação também perde referência. Soma-se a isso o fato de que muitos financiamentos têm duração curta e que os territórios continuam mudando enquanto a intervenção acontece, o que torna ainda mais difícil separar aquilo que foi consequência direta do projeto de tudo o que aconteceu ao redor dele.

É por isso que ela observa que muitas organizações acabam se concentrando mais no alcance, combinando números com relatos de participantes, enquanto uma avaliação mais profunda da transformação ainda enfrenta limitações de tempo, desenho e recurso. Isso não significa que esses dados sejam irrelevantes, mas que eles respondem apenas parte da pergunta.

Talvez por trabalhar muitas vezes distante da ponta, essa diferença entre acompanhar indicadores e enxergar o efeito concreto de um projeto tenha ficado ainda mais evidente para Luíza quando ela visitou uma escola que havia participado de uma iniciativa acompanhada por sua equipe. Na época, seu papel estava mais ligado à gestão de portfólio e ela não coordenava diretamente aquele projeto, mas a visita permitiu que aquilo que costumava aparecer em reuniões, relatórios e planilhas ganhasse outra forma.

“Foi muito legal porque é quando você começa a tangibilizar o seu trabalho. [...] Você está lá no dia a dia da escola e consegue ouvir e ver. A escola começou a dar aula de culinária com o que eles estavam plantando por conta do projeto, as crianças fizeram um livro de receitas com as memórias delas e pensaram um almoço para a gente com a professora.”

Não era uma avaliação de impacto estruturada e Luíza faz questão de não apresentar aquela experiência como se fosse, mas havia ali algo que os números sozinhos dificilmente mostrariam. O projeto tinha atravessado a rotina da escola e aparecia no que as crianças plantavam, cozinhavam, registravam e compartilhavam.

A cena também ajuda a lembrar que medir não deveria significar apenas encontrar uma forma mais sofisticada de contar resultados, mas construir mecanismos capazes de aproximar a gestão daquilo que está acontecendo com as pessoas. E talvez seja por isso que, para Luíza, trabalhar com impacto exige uma camada que nenhuma ferramenta resolve sozinha, porque antes de decidir o que deve mudar é preciso entender se quem vive aquela realidade enxerga o problema da mesma maneira. É preciso observar e escutar.

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Antes da solução, a escuta

Quanto mais Luíza se aprofundava no trabalho com impacto, mais uma ideia começava a tensionar algo que parecia natural no início de sua trajetória. Quando enxergamos um problema de fora, existe a tentação de acreditar que também sabemos qual deveria ser a solução, mas essa leitura parte inevitavelmente da nossa própria experiência e pode fazer com que necessidades que parecem evidentes para quem observa não sejam percebidas da mesma forma por quem vive aquela realidade.

Ela reconhece isso inclusive quando olha para alguns dos voluntariados dos quais participou e percebe que, em determinados momentos, chegou aos territórios carregando uma disposição muito maior para ajudar do que para entender.

“Às vezes, dentro da nossa bolha e da nossa bolha de privilégios, a gente acha que tem a solução para o problema do outro e às vezes o outro nem entende que aquilo é um problema. [...] A gente quer arranjar a solução a partir do nosso viés, pelo olhar enviesado da nossa realidade.”

Esse reconhecimento não aparece na conversa como uma crítica distante ao modo como outras pessoas atuam, porque Luíza inclui a si mesma nessa revisão e lembra que já entrou em comunidades com uma postura que hoje identifica como a da pessoa que chega acreditando que pode contribuir com respostas antes mesmo de compreender as perguntas.

Foi a experiência somada ao estudo que ampliou esse olhar e colocou a escuta em outro lugar. Se no começo da conversa ela já havia se apresentado como alguém que aprendeu a valorizar cada vez mais o tempo dedicado a ouvir, aqui essa característica deixa de ser apenas pessoal e passa a atravessar também a forma como ela compreende o trabalho social.

“A comunidade sabe o que ela quer e o que ela precisa. A gente é só ferramenta e pode, de alguma forma, fazer as costuras para que isso aconteça, mas a gente não tem a solução porque não é a nossa realidade.”

Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes da trajetória que Luíza compartilhou comigo, porque a mesma profissional formada para investigar problemas e construir caminhos também precisou aprender que nem todo problema será definido por ela e que algumas das respostas mais consistentes surgem justamente quando quem trabalha com impacto abandona a posição de protagonista e passa a ocupar um lugar de apoio, conexão e construção conjunta.

É nesse ponto que gestão, monitoramento, avaliação e escuta deixam de parecer assuntos separados. Um projeto pode ter cronograma, orçamento, indicadores e uma equipe preparada, mas se a realidade que pretende transformar foi interpretada apenas a partir de quem está de fora, existe um risco de que todo esse esforço esteja muito bem organizado em torno da pergunta errada.

Talvez por isso a palavra costura apareça com tanta força quando Luíza fala sobre si, porque ao longo da carreira ela foi entendendo que sua contribuição nem sempre está em entregar uma resposta pronta, mas em aproximar pessoas, conhecimentos e possibilidades até que outros caminhos consigam surgir.

E essa ideia nos leva de volta à Luíza que conhecemos no início da conversa, aquela que gosta de ouvir histórias, encontrar gente e mergulhar em conversas, mas agora com uma camada a mais. As conexões que ela valoriza na vida também se tornaram parte da maneira como escolheu construir sua trajetória.

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Pontes, laços e costura

Quando pedi a Luíza um conselho para quem está tentando entrar no campo do impacto, ela não começou indicando uma formação, uma ferramenta ou um caminho profissional específico. A primeira sugestão foi conversar com pessoas que já estão nesse universo, ouvir trajetórias diferentes e usar essas trocas para ampliar a própria ideia sobre os caminhos possíveis. Foi assim que muitas das conexões que marcaram sua própria transição começaram e talvez por isso ela acredite tanto na potência de conversas que não nascem necessariamente com um objetivo imediato, mas que podem abrir possibilidades que ainda nem estavam no radar.

Ao mesmo tempo, Luíza reconhece que entrar em uma carreira movida por propósito não significa permanecer conectado a ele o tempo inteiro. A rotina chega com planilhas, prazos, cobranças e entregas e, em algum momento, um trabalho de impacto também pode simplesmente parecer trabalho. Por isso, se pudesse colocar alguma coisa na mochila de quem está começando essa trilha, ela protegeria justamente aquilo que fez a pessoa querer iniciá-la.

“Coloque ali dentro de uma caixinha muito bem cuidada esse propósito e esse foguinho que está te movimentando, esse desejo para iniciar essa trilha.”

Luíza conta que, em diferentes momentos, foram outras pessoas que a ajudaram a lembrar por que havia escolhido aquele caminho. Algumas abriram portas concretas, como sua primeira oportunidade no terceiro setor, enquanto outras se tornaram referências com quem ela pode trocar, questionar e voltar quando precisa reorganizar as próprias ideias.

Talvez não seja coincidência que tantas partes da trajetória dela terminem voltando às relações, porque quando nossa conversa já caminhava para o fim Luíza lembrou de algo que sentia ter deixado de fora ao tentar se definir no começo. Ela disse que valoriza profundamente pontes e laços e que se considera boa em fazer costuras entre pessoas.

“Eu sou uma ótima costureira na vida real e péssima com uma linha e uma agulha, mas acho que tenho essa capacidade, com essa escuta, de conectar pessoas. Eu sou muito apaixonada por conexões.”

Essa capacidade aparece inclusive na forma como ela ocupa outros espaços. Luíza já participou como mentora de jovens mulheres que estavam atravessando dúvidas parecidas com as que ela mesma teve no início da vida profissional e encontrou nessas conversas a possibilidade de oferecer não uma resposta pronta, mas repertório para que cada uma pudesse enxergar mais opções para si.

No fim, talvez seja essa imagem que melhor amarre tudo o que atravessou nossa conversa. A menina que queria sair de casa porque o mundo era grande demais continuou procurando novas perguntas e a engenheira continuou interessada em entender como as coisas se sustentam, mas ao longo do caminho Luíza descobriu que algumas das construções mais importantes não dependem de concreto e nem começam com alguém apresentando uma solução.

Às vezes, elas começam quando alguém escuta o suficiente para perceber quais pontos podem ser aproximados e então faz a costura necessária para que pessoas, conhecimentos e possibilidades consigam se encontrar.

Talvez seja esse o tipo de ponte que Luíza esteja construindo agora.