Há trabalhos em que a transformação não aparece de uma vez. É preciso prestar atenção.
Foi essa sensação que ficou comigo depois de conversar com Manoela Moreira. Psicóloga de formação e hoje presidente do Instituto Rizomas, ela construiu uma trajetória em que observar o comportamento humano acabou encontrando outro propósito: contribuir para o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Nossa conversa passou por educação, comunidade, impacto social, dinheiro e pelas dificuldades de sustentar uma organização que quer chegar a mais pessoas. Mas uma ideia continuou aparecendo, mesmo quando mudávamos de assunto: antes de tentar transformar alguma coisa, talvez seja preciso aprender a observá-la.
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Antes de transformar, observar
Quando perguntei a Manoela Moreira como é possível medir algo tão subjetivo quanto o desenvolvimento socioemocional de uma criança, a resposta dela me levou de volta ao começo da sua trajetória.
Manoela é psicóloga e escolheu, ainda na formação, seguir pela Análise do Comportamento. Eu até comentei que imaginava ser uma área bastante procurada dentro da Psicologia. Porém, ela me explicou que não necessariamente, mas, para ela, havia algo ali que fazia sentido desde cedo: observar o comportamento humano.
A observação apareceu mais de uma vez na nossa conversa.
Hoje, à frente do Instituto Rizomas, essa mesma lente está presente na forma como acompanha o desenvolvimento das crianças e adolescentes. Quando questionei se mensurar habilidades socioemocionais não carregava inevitavelmente uma dose de subjetividade, Manoela explicou que é justamente pela observação dos comportamentos que essas mudanças começam a ser percebidas.
Isso me fez pensar sobre a nossa pressa por resultados quando falamos de impacto.
Número de pessoas atendidas. Número de projetos realizados. Número de atividades oferecidas.
Números…
São informações importantes, claro. Mas nem toda transformação cabe imediatamente em uma planilha.
Como medir uma criança que passa a colaborar mais? Que começa a se posicionar? Que desenvolve autonomia? Que cria confiança? Que se relaciona de outra maneira com as pessoas e com o lugar onde vive?
Talvez, antes de medir uma transformação, seja preciso aprender a enxergá-la.
E observar seria uma palavra que voltaria à nossa conversa de outras formas.
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De quem é a responsabilidade por uma criança?
Em determinado momento, levei para Manoela uma inquietação que não nasceu naquela conversa.
Sou grande admiradora do trabalho da jornalista Flávia Oliveira justamente porque suas análises dificilmente param na primeira camada. Quando fala de política, segurança pública, desigualdade ou território, gênero, raça e classe costumam entrar na discussão.
E uma reflexão dela sobre crianças de comunidades periféricas me faz sempre refletir: o cuidado de uma criança não deveria estar restrito à sua família.
Existe uma comunidade ao redor. Existe uma sociedade. Existe o Estado.
Quis saber como isso aparecia para Manoela depois de anos trabalhando com crianças e adolescentes no Capão Redondo, em São Paulo.
Perguntei se ela ainda percebia esse senso de comunidade ou se estávamos cada vez mais distantes uns dos outros.
Pela experiência de Manoela, esse cuidado ainda existe.
Ele aparece nas famílias, na vizinhança e também nas próprias crianças. O Rizomas, que começou a partir do trabalho voluntário e hoje desenvolve atividades com crianças, adolescentes e suas famílias, acabou se tornando também um espaço em que esse cuidado pode ser exercitado coletivamente.
Mas uma comunidade não é feita apenas de pessoas cuidando de crianças. Em algum momento, as próprias crianças começam a olhar para o lugar onde vivem e perguntar: o que nós podemos cuidar aqui?
Foi daí que surgiu uma das histórias que mais ficaram comigo depois da conversa.
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Uma boa intenção também precisa ser recalculada
Havia animais abandonados pelas ruas da comunidade. As crianças e as pessoas envolvidas no projeto perceberam aquilo como um problema e quiseram fazer alguma coisa. Uma das ideias foi arrecadar ração para alimentar os animais.
À primeira vista, fazia todo sentido: existem animais com fome, então vamos oferecer comida.
Só que a solução também poderia produzir consequências que não haviam sido consideradas inicialmente. Deixar alimento disponível poderia atrair outros animais e criar novos problemas para aquele espaço.
Era preciso recalcular a rota.
E talvez seja justamente aí que essa história deixe de ser apenas sobre cães, ração ou crianças realizando uma atividade social e fale sobre como construímos soluções.
O próprio trabalho desenvolvido pelo Instituto Rizomas parte de problemas percebidos no entorno e coloca crianças e adolescentes no processo de imaginar e construir respostas.
A preocupação com animais abandonados chegou, de fato, a se transformar em um projeto de cuidado com animais na comunidade. Mas participar da transformação de um território também significa descobrir que a primeira ideia nem sempre é a melhor. A boa intenção não encerra a discussão sobre impacto. Às vezes ela é só o começo, porque observar também significa perceber as consequências daquilo que fazemos e ter disposição para dizer: precisamos pensar de novo.
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E quando quem foi impactado volta?
Em algum momento da conversa, comecei a pensar no futuro daquelas crianças e perguntei a Manoela o que acontece quando alguém cresce convivendo com projetos sociais desde cedo.
Uma criança participa, desenvolve outras habilidades, conhece novas possibilidades, cresce, estuda, constrói sua própria trajetória. Mas um dos caminhos dela pode ser o retorno para o território? Para o projeto? Passa a ocupar o lugar de voluntária, educadora ou profissional e participa da transformação de outras crianças?
Manoela me contou que esse movimento já aconteceu no próprio Rizomas. Uma das pessoas que hoje participa da construção do Instituto esteve anteriormente do outro lado dessa relação.
Mas fiquei pensando no que significa esse retorno. Quando falamos de impacto, frequentemente procuramos aquilo que mudou na vida de alguém.
Talvez exista outra pergunta igualmente interessante: o que essa pessoa passa a mudar na vida de outras pessoas depois?
Nesse momento, impacto deixa de parecer uma linha reta entre quem oferece e quem recebe.
Começa a parecer mais uma rede e fico cada vez mais impressionada por esse universo.
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Trabalhar com impacto não é romântico
Perto do fim da nossa conversa, fiz uma pergunta que tenho gostado cada vez mais de fazer.
Queria saber o que Manoela aprendeu trabalhando com impacto que alguém olhando esse universo de fora provavelmente ainda não sabe. A resposta nos levou para um lugar bem menos bonito do que as fotografias de projetos sociais costumam mostrar.
Trabalhar com impacto não é romântico. Existe propósito. Existe vontade de transformar. Existe gente profundamente comprometida com aquilo que faz.
Mas existe trabalho duro. Existem expectativas que precisam ser calibradas. E existe dinheiro.
Uma organização social precisa de profissionais preparados. Pessoas com formação, experiência e repertório para lidar com problemas que, muitas vezes, são extremamente complexos.
Só que essas mesmas pessoas também encontram oportunidades no mercado tradicional.
Como competir por bons profissionais quando os recursos são limitados? Como remunerar adequadamente uma equipe? Como ampliar um projeto sem ter dinheiro para ampliar sua estrutura? Como chegar a mais crianças sem ter mais pessoas, materiais e recursos?
Nossa conversa passou por captação justamente por isso.
Quanto maior a capacidade de mobilizar recursos, maior também pode ser a capacidade de estruturar o trabalho, trazer pessoas e chegar a mais crianças e adolescentes.
Talvez seja uma das contradições menos discutidas quando romantizamos carreiras de impacto: propósito pode fazer alguém querer trabalhar por uma causa. Mas uma causa também precisa conseguir sustentar quem trabalha por ela.
Comecei nossa conversa perguntando a Manoela como conseguimos observar uma transformação. Terminei pensando em tudo aquilo que precisamos observar para que uma transformação consiga continuar existindo.
As crianças, o território, as consequências de uma solução, as pessoas que fazem o trabalho acontecer, os recursos disponíveis.
E, quando necessário, a própria rota que escolhemos.
Talvez trabalhar com impacto tenha menos a ver com chegar sabendo exatamente como transformar alguma coisa, e muito mais com observar, agir e estar disposto a recalcular.

