01
A pergunta que vem antes da resposta
Quando perguntei quem eu encontraria se tirasse o cargo e a organização onde Marina trabalha, ela voltou para uma característica que parece acompanhá-la desde muito antes da carreira.
Marina era a criança do “por quê?”. Daquelas que cansam os pais perguntando a razão das coisas. Cresceu curiosa, inquieta, interessada por assuntos diferentes demais para caberem facilmente em uma única definição.
Talvez por isso tenha escolhido Comunicação quando chegou a hora da graduação. Não porque já soubesse exatamente o que queria fazer, mas quase pelo contrário: porque ainda queria manter possibilidades abertas.
A UFMG ampliou essa inquietação. O contato com as Humanidades deu repertório para algo que já existia nela: questionar, observar e tentar entender o que sustenta aquilo que parece simplesmente dado. Anos depois, essa característica se tornaria uma das principais ferramentas da sua carreira.
“Mesmo se eu for apertar um botão, eu vou me perguntar por que eu estou apertando o botão. Por que o botão é redondo e não quadrado? Por que será que o quadrado não funcionaria melhor?”
A frase me fez pensar em quantas vezes tratamos pensamento crítico como uma competência sofisticada e difícil de ser feita quando, às vezes, ele começa com uma pergunta infantilmente simples: por quê?
“Ainda tem lugares em que as pessoas não estão se perguntando o porquê das coisas.”
02
A carreira nem sempre aparece enquanto estamos vivendo
A trajetória da Marina não foi planejada como uma sequência de cargos que levariam inevitavelmente à gestão de projetos. Ela própria só conseguiu conectar os pontos depois.
No começo da carreira, havia tarefas bastante operacionais. Em uma startup de avaliação educacional, por exemplo, sua função como estagiária envolvia cadastrar cerca de 200 questões por semana em um banco de dados. Marina não desprezou o trabalho porque era operacional. Fez outra coisa: começou a pensar em como fazê-lo melhor.
Organizou telas, planilhas e a sequência de atividades. Junto de outros estagiários, foi construindo pequenos processos para aumentar a eficiência. Talvez a gestão já estivesse ali antes de aparecer no cargo.
“Não tem demérito nenhum em ser uma função operacional. Acho que existe um certo vício do mercado de falar: “você tem que ser mais estratégico”. Mas as funções operacionais também importam.”
Essa fala fez muito sentido para mim, porque existe uma obsessão profissional por parecer estratégico e performático. Mas alguém só consegue melhorar um processo quando entende o que acontece dentro dele. E talvez algumas competências apareçam justamente aí, muito antes de recebermos um cargo que dê nome a elas.
03
Deixa eu gastar meu tempo com uma coisa que seja boa para o mundo
Antes de existir uma estratégia de carreira em impacto, existia uma inquietação.
Em um dos primeiros estágios, Marina trabalhou com assessoria de imprensa de uma operadora de celular. A experiência tinha boas condições, mas havia uma pergunta que ela não conseguia responder: por que estou fazendo isso? Decidiu sair e ir trabalhar em uma ONG.
“A gente dedica muito tempo ao trabalho. A gente coloca muita energia no ofício. E, para mim, eu pensava: se eu já vou gastar muito tempo trabalhando, deixa eu gastar com uma coisa que seja massa, que seja boa para o mundo, que seja boa para as pessoas.”
Foi pela educação que esse desejo começou a ganhar forma. Uma disciplina optativa de Educomunicação, escolhida quase por curiosidade, virou mobilidade acadêmica, tema de TCC e, posteriormente, carreira.
Ainda não havia necessariamente o rótulo “impacto”. Havia a tentativa de juntar duas coisas: aquilo que Marina sabia fazer e aquilo que fazia sentido para ela. Só que, com o tempo, apareceu um terceiro elemento nessa equação: dinheiro.
04
Propósito não paga boleto sozinho
Talvez aqui esteja uma das partes mais incômodas da nossa conversa. E justamente por isso uma das mais importantes.
“A gente precisa viver, a gente precisa ganhar dinheiro, a gente precisa se sustentar. Muitas vezes essas duas coisas brigam. Aquilo que você ama, gosta, sabe fazer e em que vê impacto e sentido positivo nem sempre tem alguém querendo pagar por aquilo.”
Existe uma romantização em torno das carreiras de impacto que pode esconder essa contradição difícil de ignorar e que descobri conversando com Marina. Queremos transformar condições injustas do lado de fora enquanto, algumas vezes, normalizamos condições ruins de trabalho do lado de dentro.
“Às vezes a gente mascara condições ruins de trabalho sobre o pilar do impacto. “Ah, mas é impacto social.” Aí precariza o trabalho, não paga bem as pessoas, desconsidera que o que elas estão fazendo é trabalho porque é bonito. Mas amor não enche barriga.”
Essa talvez seja uma das contradições mais desconfortáveis do setor: quanto de precarização estamos dispostos a aceitar em nome do propósito? Como trabalhar na mudança?
05
Trabalhar com impacto também é trabalho
Em determinado momento, perguntei à Marina o que ela gostaria que mais pessoas soubessem antes de trabalhar com impacto. A resposta veio rápido.
“Para mim, o principal é que trabalhar com impacto é trabalho.”
Parece óbvio. Não é. Quando a pauta profissional também representa aquilo em que acreditamos pessoalmente, as fronteiras começam a desaparecer. Uma hora extra deixa de parecer apenas hora extra porque existem estudantes, professores, comunidades ou alguma causa importante do outro lado.
“Quando isso é o seu trabalho, você precisa ter isso respeitado como trabalho de verdade. [...] Eu preciso ser remunerada, eu preciso ser reconhecida, eu preciso ter tempo para outras coisas.”
Ressaltamos que isso não significa transformar relações humanas em relações frias. Significa reconhecer que propósito não deveria eliminar limites, remuneração ou condições dignas. Talvez exista, inclusive, uma incoerência em defender impacto social enquanto dependemos da exploração silenciosa das pessoas responsáveis por produzi-lo.
06
E se o impacto não precisar estar no seu crachá
Essa pergunta ganha ainda mais força quando Marina conta o momento profissional que vive agora. Depois de mais de uma década ligada à educação, ela decidiu testar uma hipótese: as competências que desenvolveu pertencem à educação ou pertencem a ela?
“Essas habilidades que eu fui desenvolvendo nesse tempo de carreira estão ligadas à educação e precisam estar dentro da educação? Eu consigo aplicar isso em outros contextos?”
Hoje, Marina experimenta um contexto profissional completamente diferente e também uma nova relação entre trabalho e propósito. Durante muito tempo, educação, impacto, profissão e identidade estiveram praticamente sobrepostos. Agora ela testa separá-los.
“Hoje a minha busca é: como eu atuo com impacto para fora do meu trabalho principal, separando o que é o meu ganha-pão do que é o meu projeto de sentido, de transformação e de colaboração para o mundo.”
Essa fala mexeu comigo. Porque costumamos perguntar: como faço para trabalhar com propósito? Talvez exista outra pergunta possível: o propósito precisa necessariamente ser o meu trabalho?
Não tenho uma resposta. Marina também parece estar experimentando a dela. E talvez seja justamente isso que torne a pergunta interessante.
Essa reflexão é muito simbólica para quem tenta se aproximar do universo do impacto e esbarra na sensação de ainda não ter a experiência “certa”. Talvez a entrada nem sempre esteja em abandonar o que já construímos, mas em descobrir como colocar esse repertório a serviço de outros problemas.
07
Impacto precisa de gestão
Quando entramos em gestão de projetos, a conversa também encontrou um ponto da minha própria trajetória.
Venho de uma formação técnica, passei por planejamento, processos e projetos e, hoje, enquanto me aproximo do ecossistema de impacto, comecei a perceber que talvez essas experiências não estejam tão distantes desse universo quanto eu imaginava.
Afinal, um projeto de impacto continua sendo um projeto. Tem objetivo, recursos, pessoas, prazos, riscos, decisões e resultados que precisam ser acompanhados.
Mas será que a lógica é realmente a mesma?
Perguntei à Marina: gerenciar um projeto de impacto é tão diferente assim de gerenciar outros projetos?
Para ela, na teoria, não.
“Independentemente da natureza do projeto, todo projeto pode se beneficiar de boas práticas de gestão, de um trabalho bem estruturado, bem planejado, bem acompanhado e bem monitorado.”
O que muda são as condições. No recorte que Marina conhece do terceiro setor, recursos escassos muitas vezes significam equipes menores, improvisação e profissionais acumulando funções. E justamente por isso pequenas melhorias podem produzir grandes saltos.
“Às vezes as pessoas têm tão pouca ferramenta para fazer gestão que um pouquinho que você adiciona gera muito valor.”
Gestão, nesse contexto, não é burocracia. Pode significar produzir dados melhores, acompanhar resultados, estruturar processos, prestar contas, acessar financiamento e conseguir demonstrar que determinada iniciativa realmente funciona.
08
O mundo do impacto também é um mundo corporativo
Essa frase desmontou outra fronteira que costumamos construir (e eu me incluo nesse pacote). De um lado, “o corporativo”. Do outro, “o impacto”. Marina colocou os dois muito mais perto.
“O mundo do impacto é um mundo corporativo também. [...] Follow the money. De onde vem o dinheiro? Você precisa prestar contas, aplicar em editais, conseguir um financiador, um parceiro.”
Uma organização pode ter uma missão social extraordinária. Ainda assim precisa captar recursos. Precisa de processos. Precisa apresentar resultados. Precisa gerir pessoas. Precisa demonstrar impacto.
“Se as organizações que trabalham com impacto forem bem estruturadas, é melhor para elas conseguirem recurso, provarem o impacto, conseguirem financiadores e parceiros. O setor tem muito a ganhar com uma boa gestão, porque isso vai ajudar a ampliar o próprio impacto.”
Talvez profissionalizar o impacto não seja torná-lo “corporativo demais”. Talvez seja criar condições para que ele sobreviva, cresça e alcance mais gente.
09
Nem todo mundo precisa caber em uma especialidade
No final da conversa, Marina me recomendou um livro que a ajudou a fazer as pazes com uma característica que, durante muito tempo, pareceu uma dificuldade: ser múltipla.
A mensagem que ficou para ela não é que generalistas sejam melhores que especialistas. É que o mundo precisa dos dois. E organizações de impacto talvez sejam um lugar especialmente interessante para pessoas capazes de transitar entre diferentes problemas.
“No setor de impacto, muitas vezes você tem que ser muita coisa. Às vezes o perfil generalista encaixa muito porque um dia você é a pessoa do marketing, outro dia você é financeiro... e vamos aprendendo.”
Talvez uma carreira não precise ser a descoberta de uma única caixa em que finalmente conseguimos caber. Pode ser a construção de uma combinação particular de repertórios que aprendemos a colocar a serviço de problemas diferentes.
10
As trilhas que se abrem quando alguém conversa
Antes de encerrarmos, perguntei quem havia aberto trilhas para Marina. Ela respondeu falando de algo bastante simples: conversar com pessoas. Não networking como acúmulo de conexões. Conversas.
“Para mim, esse é o meu melhor networking. [...] Minha maior dica de carreira é isso que você está fazendo: chamar as pessoas, conversar.”
Talvez seja essa uma das coisas que mais tenho aprendido construindo este projeto. Uma trajetória raramente é construída apenas pelas decisões de quem caminha.
Existem pessoas que apontam uma direção, emprestam repertório, questionam nossas certezas, apresentam alguém ou simplesmente dizem: “Conversa com essa pessoa.”
Foi assim que Alessandra me levou até Marina. E é assim que Marina abre as próximas trilhas.

