Trilha 2 · Conversas com a Peeko

Thomas Abuhanian

Quem decide o que é uma vida melhor?

Uma trajetória que começa no mercado financeiro, encontra o investimento de impacto e acaba se dedicando a uma pergunta incômoda: como sabemos se o impacto realmente aconteceu?

Thomas Abuhanian

01

Quando encontrar o impacto não encerra a busca

Thomas Abuhanian construiu boa parte da trajetória profissional no mercado financeiro. Foi trader, estudou finanças e investimentos, empreendeu e chegou a criar seu próprio fundo.

Em 2018, Thomas percebeu que precisava mudar de direção. Mais do que repensar a carreira, começou a se perguntar que tipo de trabalho faria sentido para a vida que queria construir. Foi nessa busca que encontrou o investimento de impacto.

“É isso que eu quero fazer pro resto da minha vida.”

Mas encontrar aquilo que procurava não encerrou a busca.

Quanto mais Thomas estudava o setor, mais começou a questionar a distância entre aquilo que era apresentado como impacto e aquilo que efetivamente podia ser demonstrado como mudança na vida das pessoas.

Foi dessa inquietação que ele se aproximou da mensuração de impacto e, mais tarde, da construção da Social Impact Brasil.

Possivelmente, a virada mais interessante da trajetória dele esteja justamente aí.

Thomas entrou no setor querendo gerar impacto. E acabou se dedicando a perguntar como sabemos se ele realmente aconteceu.

02

Quando tudo vira impacto

Durante a nossa conversa, Thomas voltou algumas vezes a uma expressão que se tornou comum em relatórios, apresentações e publicações: pessoas impactadas.

Mil pessoas impactadas. Dez mil. Um milhão.

O número só cresce e, junto com ele, parece crescer também a dimensão do impacto. Mas será que as duas coisas são necessariamente proporcionais?

Thomas tem a convicção de que não.

“A galera tornou impacto como um clichê, que parece que qualquer coisa que você faz com uma temática social ou ambiental é impacto automaticamente. E não é.”

A fala toca em uma distinção bem importante.

Alcançar alguém não significa necessariamente transformar alguma coisa positivamente para essa pessoa.

Uma atividade aconteceu. Um serviço foi oferecido. Um projeto chegou a determinado território. Pessoas participaram. Tudo isso pode ser relevante.

Mas ainda existe uma pergunta depois disso: o que mudou?

“Impacto social é a melhora de vida. Só isso. Se não estiver melhorando a vida das pessoas, melhorando as condições de vida das pessoas, podem ser partes do processo, mas não é impacto social.”

Não escutei essa definição como uma tentativa de encerrar o debate sobre o que é impacto. Escutei como uma exigência de ir além da atividade realizada.

Talvez o número de pessoas atendidas nos conte o tamanho de uma iniciativa. Mas, sozinho, ele ainda não nos conta o que aconteceu com essas pessoas depois dela.

03

Quem decide o que é uma vida melhor?

Para mim, nessa altura da conversa, atingimos uma questão ainda mais interessante. E explico por quê.

Se impacto pressupõe alguma melhora na vida das pessoas, quem define o que significa melhorar?

É quem financia? Quem desenha o projeto? Quem executa? Ou quem vive aquela realidade?

Thomas é bastante crítico a uma lógica de intervenção construída de cima para baixo.

“É uma mentalidade arrogante, de uma certa maneira, em que a gente fala: ‘Eu sei o que é melhor para aquelas pessoas. Eu sei o que elas precisam para viver melhor. Eu sei o que elas precisam para solucionar os problemas delas.’ Só que a gente não sabe nada.”

É uma frase bem dura, mas ela aponta para uma tensão importante: boa intenção, conhecimento técnico e recurso não significam necessariamente conhecer uma realidade melhor do que quem a vive.

Thomas trouxe para essa discussão um conceito que aprendeu com Jacqueline Novogratz: imaginação moral.

“Você escuta com o objetivo dos dois cocriarem uma solução em conjunto para aquele problema. Você trata a pessoa como igual, como uma pessoa capaz de ajudar a construir essa solução.”

Essa mudança parece pequena na linguagem, mas é grande na prática.

Não é apenas perguntar às pessoas o que elas precisam para depois voltar ao escritório e desenhar a resposta. É reconhecer que elas também carregam conhecimento necessário para construir essa resposta.

“Pessoas não são problemas a serem resolvidos. Elas são parte da solução.”

A partir dessa afirmação, penso que a pergunta pode deixar de ser: o que podemos fazer por uma comunidade? E passar a ser: o que faz sentido construir com ela?

04

Uma boa intenção é suficiente?

Thomas contou uma história que ajuda a tirar essa discussão do campo abstrato (e, particularmente, eu achei essa história incrível!)

Em uma comunidade na Índia, mulheres precisavam caminhar longas distâncias todos os dias para buscar água potável. Uma organização decidiu construir um poço mais próximo.

A solução parecia difícil de questionar. Água mais perto significaria menos tempo de caminhada, menos esforço e menos exposição a riscos.

O poço foi construído. E destruído. Foi reconstruído. E destruído novamente.

Pensei comigo, bem encabulada: uai, gente, o que será que aconteceu?

E Thomas explicou que só depois de conversar com a comunidade descobriram que eram as próprias mulheres que estavam destruindo a estrutura. A caminhada para buscar água tinha outra função que não havia entrado no diagnóstico.

“Esse momento só das mulheres é o único momento que a gente tem de lazer. É o único momento que a gente tem para bater papo, trocar ideia, fofocar, dar risada, falar mal dos maridos. É o único momento longe das responsabilidades.”

O problema da água existia. Mas existiam outras camadas daquela realidade também.

“Mesmo o acesso à água para uma comunidade que não tem água potável não é garantia de impacto. A gente tem que entender o como e tem que escutar as pessoas para ver se realmente aquilo que está fazendo está alinhado com o que elas precisam.”

Essa história reverberou em mim porque é muito fácil enxergar a lógica da solução quando estamos do lado de fora, vivendo outra realidade. Água longe. Construímos um poço perto. Problema. Solução.

Só que pessoas não vivem dentro de uma cadeia simples de causa e efeito. Existem relações, cultura, autonomia, rotina, afetos e dinâmicas que dificilmente aparecem por completo em um diagnóstico feito à distância.

A intenção daquela intervenção era boa. A pergunta é se intenção basta.

05

Quem deveria dizer se houve impacto?

A discussão sobre mensuração apareceu várias vezes durante nossa conversa, mas uma fala de Thomas ajuda a entender por que ela ocupa tanto espaço no trabalho dele sem precisarmos entrar na metodologia da Social Impact.

“Quem fala do impacto não é o engravatado, não é o financiador, não é o criador do programa. São as pessoas.”

É aqui que mensuração deixa de ser apenas uma conversa sobre indicadores. Thomas deu o exemplo de um projeto que consiga aumentar a renda de determinada população. O dado é objetivo. A renda aumentou. Mas isso basta para afirmar que houve impacto?

“Para entender se esses resultados que a organização está atingindo estão sendo revertidos em melhora de vida para as pessoas, só elas vão poder falar.”

Isso não significa abandonar números. Significa reconhecer o limite do que cada número consegue explicar.

Talvez uma das provocações mais importantes da conversa esteja justamente aqui: mensurar impacto não deveria servir apenas para demonstrar que uma organização fez alguma coisa. Deveria ajudar a descobrir se aquilo que ela fez está funcionando e permitir mudar de direção quando não estiver.

06

Propósito não deixa o trabalho mais fácil

Perguntei ao Thomas o que existe no trabalho com impacto que quase ninguém vê. A resposta desmontou uma imagem bastante sedutora sobre o setor, inclusive uma que eu também tinha.

Existe propósito. Existe a possibilidade de trabalhar com problemas que importam. Existe satisfação. Mas existe muito trabalho também. Mas muito mesmo!

“As pessoas acreditam que, por ser um propósito, por ter essa questão toda sedutora de falar ‘vou ajudar o mundo, vou ajudar as pessoas’, o trabalho é fácil. E não é. É muito mais difícil se você faz direito.”

O ponto não é transformar impacto em sacrifício.

Quando o trabalho interfere na vida de pessoas, principalmente em contextos de vulnerabilidade, boa intenção aumenta a responsabilidade de fazer bem feito.

“O propósito você vai colher lá na frente. [...] Mas é um trabalho muito árduo.”

Talvez trabalhar com propósito não seja encontrar um trabalho em que tudo faça sentido o tempo inteiro. Talvez seja aceitar que acreditar profundamente no porquê não elimina a complexidade do como.

07

Envolva-se. E questione.

No final da conversa, pedi que Thomas imaginasse alguém começando agora. Alguém interessado em trabalhar com impacto, mas ainda tentando entender por onde entrar.

A primeira orientação foi prática:

“Antes de começar, se envolva com causas, se envolva com projetos. Meta as caras realmente. Você só vai conseguir entender a realidade à medida que você vive ela. Esteja na ponta também.”

Mas ele colocou uma segunda condição junto dessa aproximação: o senso crítico.

“Se envolva e vá questionando internamente. Não precisa ser o chato, mas começa a exigir mais, começa a perguntar mais.”

Se alguém disser que um projeto impactou 1 milhão de pessoas, procure entender onde está esse impacto. Não porque toda iniciativa deva partir de uma suspeita. Mas porque trabalhar com impacto também deveria significar aprender a distinguir uma boa história de uma mudança que realmente aconteceu.

“Tem muitas pessoas com vontades maravilhosas, querendo fazer. Mas tem poucos focados em comprovar que essa paixão está sendo direcionada para o lugar certo.”

Acho que existe algo importante nessa combinação: não perder a vontade de transformar, mas também não se contentar com a intenção.

Ir para a ponta. Escutar. Estudar. Perguntar. Medir. Rever.

E talvez aceitar que, antes de dizer que uma iniciativa transformou a vida de alguém, existe uma pessoa que precisa participar dessa resposta: a própria pessoa que viveu a mudança.