Trilha 7 · Conversas com a Peeko

Zoë Melo

Quando o impacto sai do discurso e volta para a rua

Zoë Melo atravessou moda, design, cidades e comunidades até transformar uma inquietação em método: observar de perto, conectar pessoas e testar soluções no território — sem separar impacto social, ambiental e econômico.

Zoë Melo

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Eu sou do mundo e eu sou Minas Gerais

Eu comecei a conversa tentando tirar Zoë Melo dos cargos, dos projetos e do currículo. Queria saber quem aparecia quando tudo isso era colocado de lado. A resposta veio quase como uma definição de identidade — e acabou funcionando como uma chave para entender o restante da conversa.

“Eu sou do mundo e eu sou Minas Gerais.”

Zoë nasceu em Belo Horizonte, viveu em diferentes lugares e construiu boa parte da vida profissional atravessando países. Mas ela não descreve essas viagens como uma coleção de destinos. O que parece interessá-la é o contato com a vida local: conhecer uma cidade pelo trabalho, pelas pessoas e pela maneira como elas enxergam o próprio território.

“A maior parte das cidades que eu já fui no mundo foi mesmo a trabalho. Isso traz uma interação local com as pessoas, uma vivência pelo viver delas, pelo olhar delas sobre o local e a cultura.”

Talvez por isso faça sentido que, depois de tanto circular, ela tenha escolhido voltar justamente para Belo Horizonte para experimentar uma nova ideia. Não como um retorno nostálgico, mas como território de teste.

“Eu decidi fazer um projeto bem grande e complexo dentro da cidade de Belo Horizonte, que é a cidade em que eu nasci.”

02

O design como ferramenta — não como fim

Ao longo da conversa, percebi que seria fácil enquadrar Zoë como designer. Ela mesma corrigiu essa leitura mais tarde: não é exatamente isso que faz. Seu trabalho está muito mais no encontro entre pessoas, repertórios, materiais, negócios e territórios.

“Eu não sou designer de produto. Eu trabalho com os designers. Eu sou ‘connect the dots’, eu conecto as partes.”

O design, para ela, aparece como linguagem e método. Foi assim também no Neighbors by Design, experiência criada em seu bairro em Los Angeles: vizinhos doavam materiais que já não usavam; outros entravam com habilidades como costura e bordado; hortas locais e relações de vizinhança passaram a fazer parte do mesmo ecossistema.

“O design é a ferramenta. Design de produto, design thinking, são as ferramentas que eu utilizo para criar os projetos.”

O interessante é que Zoë conta que o projeto já praticava economia circular antes mesmo de ela usar esse nome para descrevê-lo. Primeiro veio o fazer, o método que se encaixava na realidade do território. Depois, o vocabulário.

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Quando sustentabilidade vira mercado — e o lixo continua aumentando

Houve um momento da conversa em que Zoë pegou uma sacola que havia trazido de uma feira de resíduos. Ela estava cheia de catálogos e materiais impressos. A cena era pequena, mas carregava a contradição inteira.

“COP30, ODSs, consultores... existe um mercado. Porém eu ando na rua, estou fazendo um levantamento do bloco em que moro em Belo Horizonte, e só aumenta o lixo.”

A provocação não era contra o crescimento do campo de impacto. Pelo contrário: Zoë demonstra satisfação ao ver escolas, hubs, empresas e profissionais incorporando temas que ela acompanha há décadas. O incômodo é com a distância entre a linguagem e a transformação concreta.

“Tem tecnologia, tem tantos projetos incríveis e realmente precisamos levar isso mais localmente, tratar um bloco por bloco, sair um pouco do grande, das palavras. Tem muitos editais né, mas ficam todos muito dentro do sistema.”

Foi uma das ideias que mais me fez refletir: talvez a escala do impacto positivo não comece no tamanho da solução planejada ou imaginada, mas na capacidade de permanecer perto o suficiente do problema para enxergá-lo.

04

Impacto precisa de dinheiro — e fazer o bem pode ser pago

A conversa também escapou de uma romantização comum no setor. Quando perguntei sobre frustração e sobre o que mantém um projeto vivo depois do entusiasmo inicial, Zoë foi objetiva: sem recurso financeiro, não há projeto que se sustente.

“Não tem como você fazer nenhum projeto se não houver recursos financeiros.”

Ela observa que muitos projetos conseguem o impulso inicial, mas encontram dificuldade na manutenção. Em Belo Horizonte, tem apoiado grupos — inclusive grupos de mulheres e iniciativas ambientais — a pensar modelos de negócio menos dependentes exclusivamente de editais.

“Os projetos vão para a frente um pouco, mas param. Acho necessário haver uma participação maior das empresas que estão à volta do problema para ajudar a solucionar.”

E então veio uma frase simples, quase jogada no meio da conversa, mas que resume um debate importante sobre trabalho no campo do impacto:

“Fazer o bem pode ser pago. Deveria ser melhor pago.”

Impacto social e ambiental, na visão dela, não aparece separado do econômico. Se a solução pretende durar, gerar renda, criar novos empreendedores e fortalecer pessoas locais não pode ser um efeito colateral: precisa entrar no desenho.

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Entre a boa ideia e a implementação existe um mundo

Talvez a frase que melhor traduza o lado menos fotogênico do impacto tenha surgido quando falávamos sobre a velocidade com que hoje conseguimos criar, apresentar e divulgar projetos.

“Entre isso e o fazer e executar os projetos, existe um mundo.”

Zoë reconhece o valor da comunicação, das redes e das novas ferramentas. Mas chama atenção para aquilo que não cabe em um canvas pronto: acompanhar as fases, implementar, errar, adaptar, formar rede, encontrar recurso e permanecer tempo suficiente para descobrir se a ideia funciona.

“Tem ótimas ideias, tem muitas pessoas que vivem de boas ideias e conseguem navegar com elas, mas é importante também saber passar pelas fases difíceis de implementá-las.”

É aqui que a frase-guia ganha corpo: o erro não aparece como um desvio da trajetória de Zoë, mas como parte do próprio método. A experiência que falha não some; ela informa a próxima tentativa.

06

Impacto local exige presença

Em vários momentos, nossa conversa voltava ao tema território. Bairro, rua, vizinhança, comunidade. Mesmo quando falávamos de projetos internacionais ou de grandes agendas, Zoë puxava a discussão de volta para a escala das relações.

“Se queremos ver esse resultado, temos que realmente nos engajar localmente. Não é só ir, fazer filminho, mostrar e depois não ter tempo para se dedicar.”

Essa presença também aparece na maneira como ela fala sobre quem vive nos territórios. Não como público beneficiário abstrato, mas como gente que precisa participar, ser reconhecida e ter suas capacidades incorporadas ao projeto. O engajamento de todas as partes é fundamental.

“Trazer as pessoas com o seu melhor, com as suas habilidades e os seus sonhos também. Adoro dar aquele empurrão nos sonhos das pessoas.”

Mais adiante, ela colocou isso de outra maneira: ser visto também importa. Reconhecer o trabalho, o sorriso, a presença e o conhecimento das pessoas é parte da transformação e não apenas um detalhe de comunicação.

“As pessoas serem observadas e valorizadas é essencial se queremos realmente um mundo melhor.”

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A contradição de criar produtos em um mundo que precisa consumir menos

Uma das passagens mais interessantes da conversa veio quando Zoë reconheceu uma contradição dentro do próprio trabalho. Quem trabalha com produto participa de uma indústria que precisa vender. Ao mesmo tempo, quem trabalha com sustentabilidade precisa encarar a necessidade de reduzir consumo e resíduos.

“Essa é a grande contradição, inclusive do meu trabalho: design de produto, que temos que vender. Você vive dentro dessa ambiguidade, que é o consumismo e o não consumismo.”

Em vez de resolver a contradição com uma resposta pronta, ela parece escolhê-la como lugar de investigação. Reduzir, reutilizar, observar o que realmente é necessário e usar o erro para redesenhar melhor.

“Eu adoro os erros. Isso me faz fazer o design de um produto melhor.”

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Formação, propósito e a coragem de se jogar

Já no fim da conversa, depois de eu agradecer e admitir que às vezes me pego esperando estar mais preparada — fazer mais um curso, treinar mais, ajeitar mais uma coisa antes de agir — Zoë acrescentou uma informação que não havia aparecido até então.

“Eu não tenho nenhum curso universitário, nenhum.”

Ela fez questão de dizer que isso não diminuía o valor da universidade. Se tivesse tempo, disse, faria um curso. O ponto era outro: sua trajetória foi construída pelo fazer, pela observação, pelas relações e por uma disposição de seguir caminhos que não estavam previstos.

“A minha vida tomou uma trajetória de eu encontrar propósito através do fazer e escutar a minha intuição.”

Talvez por isso a conversa com Zoë tenha terminado em um lugar muito coerente com a Peeko. Não na ideia de ter todas as respostas antes de começar, mas na disposição de abrir uma trilha, testar, encontrar gente pelo caminho e corrigir a rota.

“Você fica com essas portas à volta: ou você se joga e vê o que vai sair. Eu normalmente me jogo.”

No fim, a trajetória que começou passando por moda, design e diferentes cidades do mundo volta a uma ideia bastante simples: impacto é relação. Com o território, com os recursos, com os erros e, principalmente, com as pessoas.

“No fundo, todos nós queremos o bem para as pessoas à nossa volta e para o planeta. É tudo questão de com quem nós engajamos.”

“Você fica com essas portas à volta: ou você se joga e vê o que vai sair.”